A duplicação da RJ-104, principal corredor de acesso a São Gonçalo, trouxe um desafio recorrente para os engenheiros rodoviários da região: a variabilidade extrema do subleito em curtas distâncias. Em um mesmo trecho de 500 metros, a equipe técnica pode encontrar desde um colúvio argiloso maduro, herdado do Maciço do Mendanha, até uma areia siltosa de baixa capacidade de suporte, típica das planícies de inundação dos rios Alcântara e Imboaçu. Para definir a espessura de base e sub-base com segurança, o estudo CBR para projeto viário deixa de ser uma opção e passa a ser a espinha dorsal do dimensionamento. Em São Gonçalo, município com mais de 900 mil habitantes e um parque industrial em expansão, a densidade de tráfego pesado exige que o pavimento seja calculado com parâmetros de resistência obtidos in situ, simulando as condições de umidade que realmente ocorrem no campo. O ensaio de compactação Proctor, executado com a energia adequada, é a etapa preliminar indispensável para moldar os corpos de prova que irão para a prensa CBR. Mas o que realmente entrega confiabilidade ao projeto é a imersão por 96 horas, que reproduz o pior cenário de saturação que o subleito gonçalense pode enfrentar durante os meses de verão, quando os índices pluviométricos ultrapassam 200 mm mensais. Sem esse procedimento, corre-se o risco de subdimensionar a estrutura e condenar o pavimento à fadiga precoce. Para complementar a investigação em solos de comportamento laterítico, comuns na cidade, o laboratório combina o CBR com a granulometria e os limites de Atterberg visando classificar o material pela metodologia MCT, essencial para identificar solos de comportamento laterítico que as classificações tradicionais não capturam.
O valor de CBR obtido após 96 horas de imersão revela a real capacidade de suporte do subleito saturado, condição determinante para a vida útil do pavimento em São Gonçalo.
Metodologia e escopo
A geologia de São Gonçalo, situada na transição entre o Graben da Guanabara e os maciços costeiros, impõe condições de drenagem interna muito específicas ao subleito. Diferente de um solo saprolítico de alteração de rocha, bem drenado e de granulometria grossa, os sedimentos flúvio-marinhos que margeiam a Baía de Guanabara apresentam lençol freático elevado e granulometria fina. Esse contraste climático e geográfico se reflete diretamente nos valores de expansão medidos durante o estudo CBR para projeto viário. Um solo que, no ensaio Proctor, atinge 100% do CBR exigido em projeto, pode perder mais de 40% de sua capacidade de suporte após a saturação se não houver um controle rigoroso da umidade de compactação. O procedimento de imersão com sobrecarga padrão de 4,5 kg, que simula o peso de um pavimento de 10 cm, é particularmente revelador nesses solos gonçalenses: a expansão medida no extensômetro frequentemente ultrapassa 2%, um alerta para o projetista de pavimentos rígidos. Em campo, a extração dos blocos indeformados ou a compactação dinâmica no cilindro metálico seguem a norma DNIT 172/2016 – ME (solos) e DNIT 416/2019 – ME (materiais granulares). A experiência local mostra que, em aterros sobre solos moles da orla, é prudente executar também uma campanha de
sondagens SPT para avaliar a profundidade do solo de fundação que irá trabalhar sob o aterro compactado, e o
ensaio de permeabilidade in situ quando o subleito estiver abaixo do nível d'água.
Considerações locais
A instrução de serviço IS-206/2010 do DNIT estabelece os critérios mínimos de CBR e expansão para cada camada do pavimento, e ignorar essas diretrizes em São Gonçalo significa assumir um passivo técnico de alto risco. O maior perigo está na falsa segurança de um CBR elevado no ramo seco da curva de compactação, que se desfaz completamente quando o subleito é submetido à ascensão capilar contínua dos aquíferos freáticos da bacia do Alcântara. Pavimentos executados com CBR de projeto abaixo de 2% ou expansão superior a 2% desenvolvem trincas de fadiga e afundamentos plásticos em menos de dois anos, especialmente nas vias de ônibus que cruzam os bairros de Neves e Alcântara, onde as cargas por eixo são elevadas e repetitivas. Outro ponto crítico é a coleta de amostras indeformadas: blocos extraídos com torrões desagregados ou transporte inadequado levam a resultados de laboratório que não representam o comportamento do material compactado em campo. Para mitigar esses riscos, a campanha de sondagem deve ser precedida por uma análise tátil-visual criteriosa, e os corpos de prova devem ser moldados exclusivamente na umidade ótima do Proctor, com desvio máximo de 0,3%. A presença de matéria orgânica nos solos de mangue da região, identificada em sondagens preliminares, também invalida o uso do material como subleito, exigindo a remoção e substituição por solo de jazida qualificada.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre o CBR de laboratório e o CBR in situ para um projeto viário em São Gonçalo?
O CBR de laboratório, normatizado pelo DNIT 416/2019, é determinado em corpos de prova compactados na energia de projeto e submetidos à imersão de 96 horas. Ele mede a resistência do solo na condição compactada e saturada, que é a premissa de dimensionamento. Já o CBR in situ, executado com penetrômetro dinâmico, avalia a capacidade de suporte do subleito na umidade natural de campo. Em São Gonçalo, onde o lençol freático é sazonalmente elevado, o CBR de laboratório (saturado) é o parâmetro crítico de projeto, pois representa o pior cenário que o pavimento irá enfrentar, enquanto o CBR in situ serve como controle tecnológico durante a execução da terraplenagem.
Quanto custa um estudo CBR completo para um projeto viário?
Um estudo CBR para projeto viário, incluindo a campanha de sondagens a pá e picareta, coleta de amostras, ensaios de compactação Proctor e CBR com imersão, tem um custo que parte de R$ 100.000, variando conforme o número de furos de sondagem e a extensão do trecho a ser pavimentado. Esse valor cobre a investigação geotécnica necessária para um projeto básico de pavimentação urbana ou rodoviária, seguindo as instruções de serviço do DNIT.
Com que frequência deve-se coletar amostras para CBR ao longo de uma via em São Gonçalo?
A frequência de amostragem é definida pela IS-206/2010 do DNIT e pela variabilidade geológica da região. Em São Gonçalo, onde o perfil do subleito muda de colúvio argiloso para areia siltosa em distâncias curtas, recomenda-se um furo de sondagem a cada 100 a 200 metros lineares de via, com coleta de amostra para CBR em cada horizonte de solo representativo. Em trechos de aterro sobre solos moles da orla, a frequência pode ser aumentada para um furo a cada 50 metros, visando mapear com precisão a transição entre o aterro compactado e o solo de fundação.